TEMPOS AUDIOVISUAIS

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Quando nos deparamos com algo que não nos é familiar no cinema, um tempo que funciona ao contrário, por exemplo, nossa primeira reação é de desconforto, inquietação. A montagem cinematográfica há muitos anos trabalha com essas possibilidades, e é por meio dela que os sentidos ofertados pelos produtos audiovisuais assumem diferentes efeitos de sentidos.

O filme Irreversível do franco-argentino Gaspar Noé, lançado em 2002, é um bom exemplo de montagem, bem como de narrativa não convencionais, pois traz uma montagem anacrônica, do fim para o começo. Essa técnica faz com que o tempo do filme assuma uma outra ordem, uma ordem de discrepância com aquilo que é entendido consensualmente como tempo “real” ou tempo linear. Além disso, uma cena de estupro em tempo “real” é outra forma de subeverter esta ordem tradicional do cinema. Menos pela cena de estupro e mais pelo tempo que ela ocupa, que é compatível com o tempo real, mas incompatível com o tempo do audiovisual,extramente longa se pensarmos nos padrões hegemônicos.

Isso acontece porque ao longo de nossa vida, aprendemos a “pensar” o tempo audiovisual com características próprias do meio, que se diferenciam justamente por operarem de uma forma distinta da vida cotidiana. o tempo do audiovisual é compactado, reduzido em relação ao tempo cronológico, afinal um filme de 2 horas pode contar a história de toda uma vida.

A movimentação intensa do início do filme, com rápidos movimentos de câmera que “imitam” os batimentos cardíacos de um coração acelerado, além da pouca luminosidade, aliado a um som forte também são marcas de rompimento com a lógica tradicional do cinema. A medida que o filme passa, o ritmo intenso do começo do filme diminui gradativamente, operando de ordem inversa ao que estamos acostumados.

A noção de duração, nos termos do filósofo Henri Bergson, trata-se do seguinte: para o autor, o tempo (qualitativo e, portanto, nãocronológico) é mobilidade, vivência, continuidade, ou seja, é a própria mudança e, portanto, duração. Por isso, a duração é fluxo, nela haveria“criação perpétua de possibilidade e não apenas realidade”, explica Bergson. É sob esta ótica que o audiovisual rompe com alguns paradigmas e ensina a tornarmos nossa vida, se pensarmos ela qualitativamente e não quantitativamente (como costumamos) eterna. Contudo, o roteiro dessa eternidade chamada vida cabe somente a nós escrevermos.

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A noção de duração, nos termos de Bergson (2006), torna-se relevante para entender a virtualidade[1]. Para o autor, o tempo (qualitativo e, portanto, não cronológico) é mobilidade, vivência, continuidade, ou seja, é a própria mudança e, portanto, duração. Por isso, a duração é fluxo, nela haveria “criação perpétua de possibilidade e não apenas realidade” (BERGSON, 2006, p.15).


[1] – As considerações do autor se desenvolvem sobre o questionamento da maneira como o tempo é tratado pela ciência e pela filosofia, ou seja, predomina o ponto de vista da espacialização do tempo.

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