Hija de Perra – Imunda e necessária

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Seu nome é Hija de Perra, chilena e imunda. Sua figura pode lembrar algum personagem dos filmes de Pedro Almodóvar, porém ela é mais do que isso. Em tempos de popularidade de drag queens, podemos dizer que Hija de Perra se enquadraria como uma anti-drag, embora ela mesma fosse contra enquadramentos e definições.

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Seu trabalho integrava o circuito alternativo do Chile e ainda hoje reverbera dentro de grupos de pesquisas sobre sexualidade, sobretudo na América do Sul. Hija, era de uma personalidade singular, ministrava palestras sobre sexualidade dentro de espaços acadêmicos ao mesmo tempo que os criticava. Em seus trabalhos, como o documentário “Perdida Hija de Perra” 2010, dirigido por Vicente Barros Bordeu , o seu propósito consistia em desconstruir a heteronormatividade, questionar o binarismo regulador e apresentar suas performances contestadoras que muito se diferenciavam dos shows de lip sync de outras drag queens.

Hija de Perra escolheu o “corte sem anestesia” e suas rupturas de sentidos eram demonstradas nos seus shows que muitos enquadrariam como freak ou bizarro, com demonstrações de mastubação e BDSM – prática sexual que busca o prazer através do bondage, disciplina, dominação e sadomasoquismo. Essa era a sua forma e maneira de desestabilizar as estruturas onde nada escapava de seu olhar crítico, nem o governo, nem os meios de comunicação, nem a academia. Uma intelectualidade marginal e dissidente que escapavas às convenções já vistas.

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Em “Interpretações imundas de como a teoria queer coloniza nosso contexto sul americano, pobre de aspirações e terceiro-mundista, perturbando com novas construções de gênero aos humanos encantados com a heteronorma” artigo publicado pela Universidade Federal da Bahia – UFBA, discorre, como o preconceito e outras estruturas sociais como a igreja, as classes sociais, a economia e o contexto sulamericano interferem nos discursos e no ser travesti.

Aos que ainda insistem em categorizá-la, provocava:

 “Serei uma travesti lésbica ardente metropolitanizada?”

“Serei uma tecno-mulher com caprichos ninfómanos multissexuais carnais?”

“Serei um monstro normalizado pela academia dentro da selva de cimento?”

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Como ativista, seus referenciais teóricos foram Michel Foucault e Judith Butler, porém  Hija se atentatva  para onde irá os rumos dos estudos sobre sexualidade, questionando a teoria queer proposta pelo modelo do Norte (Europa e EUA) que necessita de revisão e atenção quando se trata do contexto sulamericano. Hija de Perra faleceu em 2012, mas sem dúvida será sempre uma referência intelectual não categorizada para nós da América do Sul.

Referências
https://portalseer.ufba.br/index.php/revistaperiodicus/article/view/12896

http://www.biobiochile.cl/noticias/2014/08/31/15-textos-de-hija-de-perra-que-te-ayudaran-a-entender-su-trabajo.shtml

https://www.youtube.com/watch?v=rWFY8X8bJig

https://www.youtube.com/watch?v=IkmKJey7ZXI&t=241s

 

TEXTO: Demétrio Moreira

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