O “corpo objeto” na arte de Marina Abramović

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Tem quem ame e tem quem odeie, mas não podemos negar, Marina Abramović é uma das mais importantes artistas do século XX, a mais conhecida quando se trata da arte de performance. Nascida em Belgrado, na Sérvia, antiga Iugoslávia, ela se dedica a arte da performance desde o início dos anos 70. As performances de Marina são tidas como transgressoras e de ruptura de sentidos, ela usa seu corpo como objeto, nas suas obras a mente e o físico são levados ao limite. A arte de Marina não pode ser dissociada do público, que é convidado a participar e passa a ser parte vital do processo artístico, é quase uma autoria conjunta, ela e a experiência do público formam a obra, um não se sustenta sem o outro. Segundo Abramović, em uma entrevista à revista Época em 2015, “para que o público possa entender suas performances eles precisam ter suas próprias experiências”.

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Marina Abramović

Em sua performance mais famosa de nome “Rhythm 0”, em 1974, Marina ficou imóvel durante 6 horas e disponibilizou 72 objetos para serem utilizados pelo público da maneira que eles bem entendessem no seu corpo. Entre os objetos selecionados pela artista haviam flores, penas e óleos, entretanto ela também ofereceu ao público facas e até mesmo um arma carregada. A artista se colocou como um objeto a ser usado e manipulado, sem qualquer chance de reação e assumiu a responsabilidade sobre qualquer coisa que pudesse acontecer. Os relatos da época é que um homem chegou a colocar a arma na mão de Marina e a fez apontar para o próprio pescoço, fora os cortes e abusos sexuais que a artista sofreu durante a performance. A ideia da artista nessa performance foi justamente demonstrar as contradições do público presente, com ela imóvel, eles foram capazes de torturá-la fisicamente e mentalmente, mas ao final das seis horas quando finalmente Marina se moveu eles saíram correndo, provavelmente com medo de algum revide por parte da artista.

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“Rhythm 0” de 1974

Controverso inclusive é a palavra que melhor traduz o sentimento do público e crítica em relação a arte e vida de Marina, ora recebe críticas por usar roupas de grife quando sua arte ousa em criticar também o materialismo ou por colocar sua vida em risco nas suas performances, mas também é aclamada, principalmente pela coragem de mostrar de maneira bruta e chocante os paradoxos da existência humana. Segundo Marina, “Somos cheios de contradições, mas não gostamos de aceitá-las e não gostamos de mostrá-las a outras pessoas, mas no meu caso, eu estou mostrando minhas contradições, estou mostrando coisas das quais eu tenho vergonha, mostro todos os aspectos da minha vida e estou sempre dividindo isso com meu público” também em entrevista a Época.

Com seu ex parceiro de vida, Ulay, Marina performou uma série de obras como “Imponderabilia” (1977) onde ficaram um de frente para o outro, nus, na porta da galeria Galleria Communale d’Arte Moderna, em Bolonha na Itália, invariavelmente para que as pessoas tivessem acesso ao prédio teriam que passar por eles e tocar em seus corpos. Em “The Lovers” (1988) já no final do seu romance, decidiram fazer do adeus mais uma obra de arte, caminharam um de cada extremidade da Muralha da China para então se encontrar bem no meio, onde se abraçaram, a caminhada durou meses.

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“Imponderabilia” de 1977

Em 2010, em “The Artist is present” no MoMA (Museum of Modern Art), a artista convidou os visitantes a encará-la pelo tempo que quisessem em uma exposição silenciosa e estática.  No total ela ficou mais de 700 horas imóvel ao longo de 70 dias, ela mal comia, bebia pouca água e suportou dores horríveis aos seus 63 anos, mais uma vez levando seu corpo a exaustão. Ulay fez uma aparição surpresa no evento, o vídeo emocionante do encontro dos dois viralizou na internet e fez a exposição ganhar mais holofotes. Essa foi a maior exposição de Marina Abramović, filas gigantescas se formavam para ver a artista, 850 mil pessoas passaram pela exposição, uma das maiores da história do MoMA.

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“the artist is present” de 2010

Na dissertação “O analista está presente: a arte da performance de marina abramovic e a clínica” de Lucas Motta Veiga, o autor desenvolve o conceito de presença, que nos permite analisar as emoções causadas do encontro de um sujeito com o outro, justamente o que a artista pretende estimular em sua obra.

A “avó da performance” como ela mesma se descreve, mesmo dividindo opiniões, ainda aos 70 anos se mantém em atividade, extrapolando os limites do corpo, investigando as possibilidades da mente, suportando dores e estabelecendo relações que provocam e inquietam o público e crítica.   

 

Referências:

https://www.youtube.com/watch?v=ennfeVSirDU

http://www.iea.usp.br/noticias/marina-abramovic

http://www.slab.uff.br/images/Aqruivos/dissertacoes/2015/2015_d_Lucas.pdf

https://www.youtube.com/watch?v=xTBkbseXfOQ

https://www.youtube.com/watch?v=U6Qj__s8mNU

 

TEXTO: Hayane Leotte

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