Anamorfoses Corporais Audiovisuais: o caso de Capitu¹

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A imagem é o elemento essencial, mas apenas o começo da ação criativa, defende a cineasta de vanguarda americana Maya Deren (2013). É isso o que parece revelar o olho-câmera do diretor artístico da TV Globo Luiz Fernando Carvalho na microssérie Capitu (2008), um olho-câmera que se presta à ação criativa e dá conta de proporcionar uma experiência que se desvia das que são normalmente encontradas pelos telespectadores diante da TV aberta, em especial, nas narrativas ficcionais.

Carvalho adentra em um terreno de experimentações e faz “uso criativo da realidade”, como sugere Deren no texto Cinema: uso criativo da realidade. A autora considera, ainda, que as manipulações de tempo-espaço é um dos recursos primordiais para testar a potencialidade das imagens. Nesses casos, “a própria câmera é entendida como o artista, com lentes distorcidas, múltiplas posições, etc., usadas para simular a ação criativa do olho, da memória, etc.” (2013, p. 11).

Algumas imagens de Capitu parecem partir da premissa exposta por Deren. Como as que são atribuídas sob a ótica de Bentinho. A profunda perturbação da personagem fica evidente nos enquadramentos em primeiros planos e nas distorções das imagens. Como o primeiro beijo do casal adolescente

 

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Fonte: <https://www.youtube.com/watch?v=I1jZQLJZ8kU

Há muitas cenas que se apresentam sob a forma de anamorfoses, que, segundo Arlindo Machado, “(…) não são mais do que desdobramentos perversos do código perspectivo, mas o efeito por elas produzido resulta francamente irrealista.” (MACHADO, 2011, p. 207). O termo anamorfose é emprestado do estudioso Jurgis Baltrusaitis.

No percurso da história da arte, os movimentos da arte moderna já buscavam a desconstrução da imagem realista; a imagem eletrônica torna essa possibilidade totalmente possível, uma vez que é mais maleável e, portanto, suscetível a anamorfoses (MACHADO, 2011).

Para conseguir esse resultado inédito, o diretor de Capitu fez uso de um recurso técnico criado especialmente para a microssérie, uma lente de 30 centímetros de diâmetro, cheia de água, que foi colocada à frente da câmera, por isso, funcionou como uma espécie de “retina” e ganhou o nome de “lente Dom Casmurro”² . A intenção foi dar uma dimensão ótica, a partir da refração da água, nas cenas de devaneio de Bentinho. O resultado foram imagens que parecem o olhar de alguém com catarata, dando vistas a um corpo deformado, nebuloso, irreal? Carvalho justifica o resultado impresso por suas lentes como um texto que foi aberto a outras visibilidades, com outras coordenadas estéticas.

Mas, as anamorfoses podem ser mais intensas que a desordem espacial como as imagens/corpos que se apresentam distorcidas em Capitu, em outros momentos da mesma narrativa há uma subversão espaço-temporal em que acontece uma anamorfose cronotópica, por exemplo, nas cenas em que passado e presente contracenam.

Fica o convite para assistirem a microssérie Capitu, para quem já viu, quem sabe rever essa produção televisual que como diz Arlindo Machado está repleta de “acidentes do acaso” imagéticos e muito bem aproveitados pelas lentes criativas de Luiz Fernando Carvalho.

 

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Fonte: <https://www.youtube.com/watch?v=k1V-gIWZwgQ>

 

¹Parte das discussões sobre as anamorfoses audiovisuais na microssérie Capitu consta também no livro Tecendo rupturas – o processo da recriação televisual de Dom Casmurro.

²Disponível em: <http://tvg.globo.com/programas/capitu/capitu/platb/2008/12/10/entre-luz-e-fusco/>. Acesso em: 25.03.2016 às 10h56.

 

 

Referências

COCA, Adriana Pierre. Tecendo rupturas – o processo da recriação televisual de Dom Casmurro. Tríbia: Rio de Janeiro, 2015.

 

DEREN, Maya. Cinema: o uso criativo da realidade. Trad. José Gatti e Maria Cristina Mendes. Revista Devires: Dossiê: Cinema Brasileiro: engajamentos no presente.  Belo Horizonte/MG, v. 9, nº 1, p. 128-149, jan./jun.2013. Disponível em: <http://www.marcoaureliosc.com.br/cineantropo/deren.pdf>. Acesso em: 14.03.2016 às 19h39.

 

MACHADO, Arlindo Pré-cinemas & pós-cinemas. 6. ed. Campinas: Papirus, 2011.

 

 

TEXTO

Adriana Pierre Coca

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