Corpos queer na cena musical brasileira

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É de corporalidade na música brasileira que eu quero falar hoje. Mas música tem corpo? Tem sim! Me refiro aos artistas que compõem esse cenário, a partir da perspectiva de corporalidades queer (aqui entendo como um dos atos corporais políticos que contestam a hetero-cis-normatividade) (BUTLER, 2000) que (des)constroem os sentidos no cenário musical do Brasil (que é a pesquisa que realizo aqui no Corporalidades). Se a Teoria queer vai surgir nos EUA nos anos 90, aqui em terras Tupiniquins por volta dos anos 60/70 os corpos subversivos já se apresentavam nos palcos, tensionando a ordem e moral da ditadura militar (1964-1985), lógico que sem o uso do termo, mas que podemos considerá-los como. Figuras como Ney Matogrosso/Secos e Molhados e DZI Croquetes nos anos 70 já causavam incomodo aos generais e na própria ordem moral da sociedade brasileira com uma postura política de ruptura dos sentidos hegemônicos do discurso sexo/gênero.

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Ney Matogrosso/Secos e Molhados (Foto: Divulgação)
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DZI Croquettes (Foto: Divulgação)

Nos anos 80, com o período de transição da ditadura militar e abertura democrática, surgem nomes como Cláudia Wonder, Renato Russo, Cazuza, Cassia Eller, Zélia Duncan. Na década de 90, surgem os Mamonas Assassinas que causam uma explosão de sentidos (LOTMAN, 1999) na música brasileira… entre outrxs. Mesmo que não se denominando queer, tais artistas sustentavam posturas políticas carregadas pela contestação aos poderes hegemônicos e conservadores que buscavam controlar pensamentos, atos e corpos.

 

Cassia Eller e Mamonas Assassinas

Eis que a partir dos anos 2000, a MPB tem uma renovação, com artistas cujas atuações político-identitárias vem com muito mais força, pra lacrar mesmo. Alguns nomes como Liniker, Filipe Catto, As Bahias e a Cozinha Mineira, Karina Buhr, Mc Linn da Quebrda, Johnny Hooker, Rico Dalassam, Lia Clark, Mulher Pepita, Pabllo Vitar… alcançaram destaque no cenário musical nacional muito rápido, por meio das redes sociais.

 

Assucena Assucena e Raquel Virgínia (As Bahias e a Cozinha Mineira), Pabllo Vittar e
Liniker

O que estes artistas têm em comum? Todxs tem uma postura política, assumem identidades deslocadas da lógica binária, firmando performatividades que acionam deslocamentos aos limites impostos pela cultura sobre o corpo, o sexo e o gênero. Esse é um contexto importante para entendermos a criação de um espaço (semiosfera) político identitário de um grupo social não-hegemônico que se apropria da música como campo de tensionamento e (des)construção. Aposta-se, assim, na perspectiva queer em busca de esgotar as estruturas hetero-cis-normativas e construir espaços de empoderamento de corpos marginais interseccionados por questões de sexo/gênero, étnico/racial e de classe.

 

Rico Dalassam e Filipe Catto

Se analisarmos não somente as letras, mas as corporalidades aí presentes, sob o viés dos estudos de gênero, podemos, a partir de uma perspectiva queer decolonial (PEREIRA, 2015), identificar elementos tensionados por estes artistas que (re)criaram e (re)criam na cena musical brasileira, uma linguagem com elementos próprios do Brasil.

 

PARA OUVIR!
Ney Matogrosso/Secos e Molhados – https://www.youtube.com/watch?v=-zLicyzaH5A
DZI Croquettes – https://www.youtube.com/watch?v=v5VsuTmNatQ&t=765s
Cassia Eller – https://www.youtube.com/watch?v=hTDOOE6U_50
Mamonas Assassinas – https://www.youtube.com/watch?v=L0iiZZdB2ao
As Bahias e a Cozinha Mineira – https://www.youtube.com/watch?v=Bxbuqll1F0w
Pabllo Vittar – https://www.youtube.com/watch?v=3L5D8by1AtI
Liniker – https://www.youtube.com/watch?v=M4s3yTJCcmI
Rico Dalassam – https://www.youtube.com/watch?v=NIgLsHMWCsI
Filipe Catto – https://www.youtube.com/watch?v=zIexVJMbYvY

 

 

REFERÊNCIAS
BUTLER: Problema de Gênero. Feminismo e subversão da identidade. (2003)
______ . Corpos que pensam: sobre os limites discursivos do “sexo”. in: LOURO, Guacira Lopes. O Corpo Educado Pedagogias da Sexualidade (2000)
LOTMAN: Cultura e Explosão (1999)
PEREIRA: Queer decolonial: quando as teorias viajam. (2015)

 

 

TEXTO
Felipe André Schütz Santos

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