Moonlight – Performances e Masculinidade negra

postado em: Blog | 0

Pensar corporalidades é pensar gêneros, a desconstrução dessas performances ou ainda a criação de novas formas de performar os gêneros, como por exemplo as masculinidades.

Para esse tema, utilizarei o recente e premiado filme Moonlight: Sob a luz do luar (2016) do diretor Barry Jenkins, que rendeu à película pautas sobre o tema masculinidades, devido a sua representatividade no que se refere à raça e sexualidade. O filme narra a difícil trajetória das fases de Chiron, o protagonista, até a sua vida adulta onde a discussão proposta pelo diretor transita a respeito da homossexualidade do personagem principal e suas relações familiares e afetivas. Embora o filme tenha a sexualidade como eixo principal, a obra ainda é passível de outras análises.

m2

De acordo com (SCOTT, 1995) o princípio da masculinidade está baseado na repressão de aspectos percebidos como femininos. Nesse contexto sobre o filme, Chiron , um garoto franzino e sensível, necessita durante as três fases apresentadas no roteiro demonstrar a sua força e firmar uma posição ou performance masculina para ser respeitado em seus  espaços de convívio. A narrativa acontece dentro de uma comunidade negra, mas, a diferença do protagonista é marcada por sua “falsa masculinidade” que não condiz com as dos outros garotos, na escola, no bairro, e também em sua família, a expectativa que a própria mãe tem a respeito do filho não é correspondida, ou seja, supostos espaços de socialização, que hostilizam e expulsam o diferente, aquele que pertence a um subgrupo.

O filme não pauta uma busca identitária racial como, por exemplo descobrir-se negro, ao menos uma discussão sobre classe,  mas sim no que (CONNEL,2000) irá denominar em configuração de práticas de gênero como constructos políticos e hierárquicos. Isto é, a busca do protagonista é por uma série de elementos materiais, sociais e simbólicos que tornam a subjetividade da masculinidade em realidade. Chiron, que na infância era um garoto franzino, em sua terceira (e última) fase, após o período na cadeia assume sua nova performance, Black: traficante do bairro, musculoso, bonito, rico e poderoso. A imagem e forma conquistada por Black nesse momento também se traduz em uma masculinidade de senso comum: visualmente agressiva, viril e irracional devido ao contexto territorial e social na qual passou o personagem. E aqui me atento que esses sentidos como agressividade, virilidade e irracionalidade, ou de forma geral, uma animalização do sujeito, foram e ainda são designados aos corpos com performances de masculinidades negras, sentidos que são rompidos na proposta do diretor Barry Jenkins em Moonlight.

m3

A imagem de Black, que remete à ideia de força, é orientada pelo o que (CONNEL,2000) chama de masculinidades hegemônicas, um regime de gênero alinhado a homens ricos, brancos, ocidentais e heterossexuais, que vão determinar o comportamento de masculinidades subordinadas alinhadas a homens gays, pobres, periféricos, não ocidentais e negros (RIBEIRO, 2015). Determinação que não está imune a resistências tanto das masculinidades subordinadas quanto pelas masculinidades hegemônicas criando espaços de tensionamento.

É através da insuficiência em se alcançar um modelo de masculinidade hegemônica que o cineasta irá propor as quebras de expectativa em Moonlight. A sensibilidade parece ser o dispositivo principal em romper com a masculinidade comum ou hegemônica ao mesmo tempo em que desloca o imaginário comum sobre homens negros. A solidão, a fuga, a necessidade de se firmar em sociedade humanizam esses corpos negros, que sempre foram submetidos, de modo reducionista, à ideia da hiperssexualização.

Moonlight é um filme sobre a sensibilidade do humano, movida sempre por erros, acertos e paixões. Moonlight é um filme negro que propõe uma nova perspectiva a respeito de uma masculinidade dinâmica que transita em diversos espaços se interseccionando e coexistindo com outros marcadores para além do biológico. É a produção de uma narrativa simbólica a respeito da masculinidade negra diferente das representadas em filmes policialescos ou comédia.

m4

——————————————————————————————

Ficha técnica :  Moonlight : Sob a luz do luar.
EUA – 2016
Duração : 111 minutos

Gênero: Drama

Direção: Barry Jenkins

Roteiro: Barry Jenkins, Tarell McCraney

Elenco: Alex R. Hibbert, Ashton Sanders, Duan’Sandy’ Sanderson, Eddie Blanchard, Edson Jean, Fransley Hyppolite, Herman ‘Caheei McGloun, Herveline Moncion, Jaden Piner, Janelle Monáe, Jesus Mitchell, Jharrel Jerome, Kamal Ani-Bellow, Larry Anderson, Mahershala Ali, Naomie Harris, Patrick Decile, Rudi Goblen, Shariff Earp, Tanisha Cidel

Produção: Adele Romanski, Dede Gardner, Jeremy Kleiner

Fotografia: James Laxton
Para ver :
https://www.nowness.com/series/just-dance/moonlight?utm_source=facebook&utm_medium=desktop&utm_campaign=share
Referências :
RIBEIRO, Alan Augusto Moraes. Homens Negros, Negro Homem : sob a perspectiva do feminismo negro. REIA – Estudos e Investigações Antropológicas, ano 2, volume 2(2): 2015.

TEXTO :  Demétrio Moreira

Deixe uma resposta