Corpos Animados na Teledramaturgia Brasileira

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Animação na ficção seriada e teledramaturgia animada são textos televisuais distintos, a primeira é o uso da técnica de animação nas narrativas ficcionais de TV, já as séries de animação produzidas para televisão são, como exemplo, as séries: Uma família da pesada (Family Guy) (1999 – 2002 / 2005 – até hoje, imagem a seguir), Os Simpsons (1989 – até hoje) e El Chavo Animado (2006 – 2016).

 

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Geralmente na ficção seriada as técnicas de animação são pouco utilizadas em interação com atores reais, uma vez que a maior parte do que é produzido na teledramaturgia prima pela busca do realismo, então quando essas técnicas são usadas estão a serviço dessa premissa e funcionam como um recurso em busca da impressão da realidade e, em geral, são produzidas para serem invisíveis.

Um fato que comprova que esse modo de uso da animação se tornou uma regularidade foi presença da personagem da canguru Flor na telenovela Pega pega (2017/TV Globo/ exibida na faixa das 19h, imagens abaixo), essa boneca animada (por meio de manipulação em algumas cenas (2D) e em outras com o recurso da computação gráfica (3D) interagia com uma adolescente que sofre de alucinações na trama. Desde o primeiro capítulo, a menina conversava com a boneca, que não falava, mas respondia com o olhar e com gestos.

 

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No entanto, com menos de vinte capítulos no ar a animação foi tirada da novela, a autora Claudia Souto diz que isso já estava programado para acontecer, o que nos parece coerente, porque manter uma personagem animada no ritmo de gravação de uma telenovela, sobretudo com aparições frequentes, demanda tempo e um custo elevado. Uma cena em que a personagem de Pega-pega contracenava com a animação da canguru Flor chegava a levar uma semana para ser finalizada. O que nos chama mais a atenção é que a personagem animada teve uma rejeição grande por parte do público que se manifestou com veemência nas redes sociais, alguns espectadores alegavam que não conseguiam compreender o papel dela, outros que era interessante, mas ainda assim, Flor causava estranhamento¹. Parafraseando Bakhtin (1986), esse “discurso estranho” desencadeou uma ruptura de sentidos, porque esse diálogo animação/atores não é recorrente no sistema de signos, que é a teledramaturgia.

Sob essas condições, animar é dar vida a seres inanimados. Animação vem do termo latino anima, que significa alma, sopro vital; também é atribuída à animação o poder de transformar a realidade.

Na teledramaturgia, segundo Sydenstricker (2012), são priorizados o uso de técnicas que garantam rapidez na produção e baixo custo. É por isso que, quando a animação faz parte de uma narrativa ficcional, em geral o roteirista deve evitar solicitações como “(…) movimentos giratórios; muitos personagens na mesma cena e; utilização de elementos naturais (chuva, água, fogo). Assim, a animação de vetor é uma solução técnica bastante adotada para oferecer mais agilidade de produção.”² . Personagens com movimentos muito elaborados e com muitos detalhes (como cabelos, dentes e olhares diversos) também representam dificuldade em uma obra televisual, porque exigem o uso da computação gráfica, que tem como processo de finalização a renderização, e essa etapa é demorada mesmo quando as imagens são simples, motivo pelo qual o uso da animação em uma rotina industrial de gravação – como a de telenovelas e seriados semanais – precisa ser cuidadoso e quase sempre é evitado. Outro complicador pode ser o tempo destinado à criação dos wireframes (esqueletos das cenas animadas, imagem a seguir) e dos bodys shape (as modelagens dos corpos das personagens, criações de texturas e cores e, como já dito, dos detalhes), processos que também contribuem para elevar o custo da produção.

 

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Sydenstricker (2012) é contundente: quando a animação é associada à teledramaturgia “O roteirista poderá enriquecer e modificar o seu roteiro desde que conte com a parceria do storyboardista ³(…) 4” . Esse é mais um quesito a ser considerado, visto que “Enquanto o roteiro para a imagem real é destinado à análise do diretor e/ou produtor, na animação os leitores primordiais são o storyboardista, o ilustrador e o animador.”5 . São desses profissionais a função, entre outras, de iluminar a cena com a “luz digital”, isto é, seguir o conceito-guia da narrativa e imprimir nas imagens animadas a mesma proposta de fotografia prevista para o estúdio em que as cenas reais estão sendo rodadas, seguindo os mesmos parâmetros. Melhor dizendo, no caso de um trabalho que une animação e captação de cena com atores reais, a sintonia entre a equipe da criação em computação gráfica e o diretor artístico precisa ser afinada.

Por tais motivos é que a produção de ficção seriada na TV Globo realizada pelo autor e diretor Luiz Fernando Carvalho se destaca por sua inserção recorrente da animação, artesanal (2D) ou digital (3D) e muitas vezes elaborada, como é o caso dos corpos animados das narrativas das séries Hoje é dia de Maria (2005) (imagem abaixo) e Afinal, o que querem as mulheres? (2010). Carvalho chegou a fazer o uso da animação com desenvoltura, inclusive no formato telenovela em Meu pedacinho de chão (2014).

Devemos levar em conta que o diretor é visto como um profissional que navega pela experimentação e que esse diálogo como ele produz não pode ser considerado uma regularidade na teledramaturgia brasileira, sobretudo, na TV aberta.

 

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¹ Informações disponíveis em: <https://extra.globo.com/tv-e-lazer/telinha/pega-pega-canguru-flor-deixa-novela-bebeth-faz-tratamento-medico-21468447.html> ;  <http://portalovertube.com/2017/06/13/canguru-animado-de-pega-pega-saira-de-cena-em-breve/> ; <http://e10blog.blogspot.com.br/2017/06/o-pior-da-semana-canguru-de-animacao-em.html > e <https://rd1.com.br/questionada-pelo-publico-canguru-flor-deixa-pega-pega-na-proxima-semana/> Acesso em: 23 jun. 2017, 14:21.

² Informações em: <http://abra.art.br/blog/2013/11/04/dramaturgia-audiovisual-notas-sobre-tecnicas-de-animacao-e-criacao-de-narrativas-transmidiaticas/>. Acesso em: 23 mar. 2017, 19:50. (SYDENSTRICKER, 2013, p.s/n).

³ Profissional responsável pela criação do storyboard, que é um guia visual, o roteiro da cena, filme ou anúncio publicitário traduzido em desenhos. O storyboard pode ser detalhado, indicando plano a plano da ação, mas em geral revela as principais cenas do roteiro e reproduz com fidelidade como foram pensados os planos e movimentos de câmera que devem ser realizados e ou produzidos em uma animação, gravação ou filmagem.

4 Informações em: <http://abra.art.br/blog/2013/11/04/dramaturgia-audiovisual-notas-sobre-tecnicas-de-animaca o-e-criacao-de-narrativas-transmidiaticas/>. Acesso em: 23 mar. 2017, 19:50.

5 Idem a anterior

 

 

TEXTO

Adriana Pierre Coca

 

REFERÊNCIAS

BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. 3. ed. São Paulo: Hucitec, 1986.

 

SYDENSTRICKER, Iara. Dramaturgia audiovisual: notas sobre técnicas de animação e criação de narrativas transmidiáticas. [2010]. Disponível em: <http://abra.art.br/blog/2013/11/04/dramaturgia-audiovisual-notas-sobre-tecnicas-de-animacao-e-criacao-de-narrativas-transmidiaticas/>. Acesso em: 23 mar. 2017, 19:50. 

 

________. Teledramaturgia de animação para roteiristas. Revista Científica de Comunicação Social do Centro Universitário de Belo Horizonte, volume 9, nº1, 2012. Disponível em: <http://revistas.unibh.br/index.php/ecom/article/view/802> Acesso em: 11 abr. 2017, 22:18.

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