Queermuseu e a normalização dos corpos

postado em: Blog | 0

No dia 10 de setembro a exposição Queermuseu: Cartografia da Diferença na Arte Brasileira, sob a curadoria de Gaudêncio Fidelis, causou repercussão em todo Brasil e no mundo, por conta do ato de censura promovido pelo MBL e endossado pela instituição Santander cultural, local onde estava a mostra.

xqueermuseu.jpg.pagespeed.ic.BK3vgMR8KX
Cruzando Jesus Cristo com Deusa Schiva (1996) Fernando Baril Foto: Divulgação

Muitos são os atravessamentos que tal ato suscitou desde: “o que é cultura?”, “o que é arte?”,até o questionamento sobre a distinção entre o que é gosto pessoal do que é proibido ou ofensivo; sobre o poder dos valores morais das instituições religiosas em nossa sociedade; o financiamento através da Lei Rouanet; o posicionamento político partidário; o interesse financeiro da instituição que controla o museu. Mas, o que pretendo discutir aqui diz respeito a normalização de nossos  corpos a partir da sexualidade.

 

21462718_973632612794884_6794610143262374256_n
Sem título (2009) Nino Cais Foto: divulgação

 

Foucault (1993) propõe em a História da Sexualidade, que a sexualidade é um dispositivo histórico de poder que regula, normatiza e instaura saberes e  verdades sobre os corpos. Seguindo esse pensamento, Butler (2003) diz que “a sexualidade é uma organização historicamente específica do poder, do discurso, dos corpos e da afetividade” (BUTLER, 2003, p.137). Uma vez que a sexualidade se constitui como um discurso hegemônico, o qual estabelece as relações de saber/poder responsáveis pela manutenção da estrutura dominante tornam-se complexas as manifestações dos corpos que desviam da norma. O dispositivo regulador é acionado em seus mais diferentes níveis de atuação, a partir de distintas instituições, leis e discursos que operam uma “verdade” sobre os corpos como instrumento de poder e controle.

 

BIA-LEITE-1-1024x1007-1
Travesti da lambada e deusa das águas (2013) Bia Leite Foto: divulgação

 

Esse dispositivo regulador tem como objetivo normalizar todos os seres humanos e seus modos de vida sob a ordem social e discursiva da cis-heteronormatividade* como sendo coerente e natural, ou seja, as identidades de gênero, assim, são construídas de acordo com uma suposta linearidade do discurso compulsório Cis-heterossexual. Todo discurso que ousar apresentar novas leituras para essa ordem social passará por esse processo de normalização, que busca deslegitima-lo, marginalizá-lo e, até mesmo, exclui-lo da sociedade. No caso, o discurso ideológico e a consequente censura, “o dito e o não-dito são elementos do dispositivo” (FOUCAULT, 1993).

 

3-miniatura-800x1405-140086
Halterofilista (1989) Fernando Baril Divulgação

 

O próprio termo queer, utilizado para dar nome à exposição, pode ser problematizado, a partir da sua origem. Com uma postura de construção das identidades deslocadas da lógica binária e um ato político de afirmação de suas existências na sociedade, o Queer surge como um movimento social e teórico que se opõe à cis-heteronormatividade e está geopolíticamente formulada numa perspectiva Estadunidense, o que não contempla todas as identidades de sexo/gênero existentes nas terras brasileiras, devido aos seus atravessamentos sociais e econômicos, constituidores desse local. O curador se utiliza do termo como um dispositivo para realizar sua “investigação crítica” aos movimentos cânones das artes que institucionalizam o gosto como recurso de discriminação estética (FIDELIS, 2017). Ainda que sua apropriação política de ressignificação para esses corpos subversivos/ não hegemônicos seja possível (PEREIRA, 2015), a exposição provoca essa desterritorialização dos sentidos, acerca de como os corpos são representados quantos suas práticas sexuais e mesmo como denúncia às violências sofridas por todos os corpos subversivos.

 

queermuseu-2-oxumaré-1980-nelson-boeira-faedrich
Oxumaré (1980) Nelson Boeira Faedrich Reprodução

 

O museu, aqui entendido como um dispositivo pedagógico (DALLA ZEN, 2011) é um ambiente onde a arte pode ensinar criticamente, tensionando o poder hegemônico que vê a reação das minorias, a muito sufocadas, como uma “agressão”. A decisão da instituição em fechar a exposição só faz alimentar o discurso repressor que busca silenciar as pessoas que sofrem diariamente a possibilidade de agressão. Porém, como Foucault afirma ao se referir sobre as táticas de resistência para escapar das ações promovidas por este poder que constrói, molda e restringe os corpos, faz por emergir “inevitavelmente a reivindicação do próprio corpo contra o poder” (FOUCAULT, 1993, p.146).

 

work-2016-06-09-18-15-37-222300
Tirésias Revela a Vinda de São Sebastião (2016) Tiago Martins de Melo Foto: Divulgação

 

 

Links importantes:

https://www.sul21.com.br/jornal/santander-fecha-exposicao-de-arte-apos-pressao-e-hostilidades-do-mbl/ (Sul 21)

http://www.metropoles.com/entretenimento/exposicao/veja-obras-de-mostra-do-santander-acusadas-de-blasfemia-e-pedofilia (Metrópolis)

http://www.extraclasse.org.br/exclusivoweb/2017/09/ataques-do-mbl-provocam-encerramento-de-exposicao-de-arte-em-porto-alegre/ (Extra Classe)

https://oglobo.globo.com/cultura/artes-visuais/artigo-nao-ha-arte-possivel-para-gente-de-bem-21810164?utm_source=Facebook&utm_medium=Social&utm_campaign=compartilhar (O Globo)

https://www.facebook.com/justificando/videos/1541326312625868/?hc_ref=ARSFvxd7mYgJee70qAoxWD-pqDmpNu4ZrzxbIqkO40K-gkklgdQL5e2rGveEPRkfsl0 (Vídeo – Justificando)

https://brasil.elpais.com/brasil/2017/09/14/politica/1505394738_622278.html?id_externo_rsoc=FB_BR_CM (El País)

https://www.nytimes.com/aponline/2017/09/11/world/americas/ap-lt-brazil-art-show-cancelled.html?mcubz=0 (New York Times)

http://obviousmag.org/viver_a_deriva_e_sentir_que_tudo_esta_bem/2017/queermuseu-cartografias-da-diferenca-na-arte-brasileiraliberdade-cultural-a-caminho-das-trevas.html (Obvious)
Referências:

BUTLER, Judith. Problemas de Gênero. Feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

DALLA ZEN, Laura Habckost. O dispositivo pedagógico da arte. Dissertação. 2011. Disponível em http://hdl.handle.net/10183/36408.

FIDELIS, Gaudêncio. Queermuseu: Cartografia, da Diferença na Arte Brasileira. Catálogo. São Paulo: Santander Cultural, 2017.

FOUCAULT, Michel. – Historia da Sexualidade I: A vontade de Saber. 17ª edição. Rio de Janeiro: Edição Graal, 1993.

______. Vigiar e Punir: Nascimento da Prisão. 20ª edição. Rio de Janeiro:Editora Vozes, 1999.

PEREIRA, Pedro Paulo Gomes. Queer decolonial: quando as teorias viajam. Revista Contemporânea. v. 5, n. 2 (2015).

 

 

Autor: Felipe André Schütz Santos

Deixe uma resposta